IMAGEM E COLAPSO


A mostra Imagem e Colapso pretende estabelecer paralelos entre filmes de diversas épocas e contextos aparentemente diferentes, mas que têm em comum a contradição entre o real e o falso, a observação e a intervenção. As associações feitas, através da organização das semanas de exibição, pretende nortear a investigação dos paralelos estéticos entre os filmes a partir da hipótese de uma crise na representação cinematográfica. Essa crise pode ser apresentada segundo dois parâmetros: fruto da perspectiva do retrato de um momento de crise política, ou relativa à própria construção da imagem cinematográfica. A imagem síntese dessa crise seria aquela que ao representar o real denuncia a si mesma como construção, ou seja, encara estes dois problemas cinematográficos - o retrato e o artifício - como uma potência poética

O Colapso da Imagem

A urgência da construção de uma nova linguagem - mais real do que o realismo.
Ao realismo parecem inevitavelmente associadas duas idéias: os filmes de ficção amarrados por um narrador invisível e os documentários de mote não intervencionista. O mercado da propaganda audiovisual comercial cresce se apropriando dessa linguagens; a própria estética do real começa a se determinar como problema.
O problema do realismo no cinema, ou da própria representação cinematográfica, é diretamente associado a seu inerente lastro no real e seu consequente viés de propaganda.
Nos filmes aqui apresentados há um constante embate com a representação dramática. No entanto, ao invés de negar uma vocação dramática, ou narrativa, os filmes apostam nos conflitos e limites dessa estrutura. Por outro lado - apesar de serem longa-metragens ficcionais, ou pelo menos assim defendidos por essa curadoria -, esses filmes são constantemente colocados num debate intrinsecamente relacionado à produção de documentários.
O paradigma da construção da linguagem se coloca em contradição com o próprio realismo dramático absorvido pela indústria cinematográfica, assim como com a noção do real a partir da estética documental.

Imagem e Colapso

A curadoria de Imagem e Colapso é orientada pela análise desses dois vetores (apresentados aparentemente isolados e conflitantes): o primeiro mais em torno do conteúdo, o segundo, da forma. Seu intuito é elaborar uma relação entre esses dois pólos de construção. Compreendendo, no entanto, ambos como presentes em todos os filmes de forma constitutiva, podemos analisar esses procedimentos inerentes ao embate entre retrato e artifício.
Dessa forma, longe de propor um isolamento entre forma e conteúdo, ou mesmo entre ficção e documentário, pretendemos utilizar esse olhar para reconhecermos o procedimento norteador na construção desses filmes, sendo ele mesmo contraditório nas obras apresentadas.
A programação explora os limites de uma representação em colapso. Se o cinema moderno encontrou a busca do real - também possibilitada por novos aparatos - o seu devir, por outro lado, lida com os problemas da construção de uma estética do real.

A Imagem e Colapso tem em sua composição filmes, em grande parte, associados a movimentos cinematográficos: Neo-Realismo Italiano, Cinema Marginal, Cinema Novo Alemão, Dogma95. Apesar desse caráter panorâmico, com um olhar histórico sobre os filmes e o avanço tecnológico dos dispositivos cinematográficos, a Mostra não pretende enxergar as soluções empregadas pelo autores como uma progressão natural e evolutiva, ora da linguagem a partir do retrato, ora do retrato que surge a partir da linguagem, mas justamente compreender estas duas operações como simultâneas e reciprocamente dependentes.
Boas Sessões!

Eduardo Azevedo.