MALDITO SEJA O FRUTO


Toda mulher tem em si um instinto maternal, e quando isso não acontece, esse instinto surge assim que ela engravida. Esse é um dos conceitos sobre a mulher moldados pela sociedade desde o começo do mundo. Doces, delicadas, sensíveis, cuidadoras, obedientes, recatadas e mães. Essa função, tão primordial à vida, é muitas vezes imposta e idealizada sobre quem a exerce, quer queira, quer não. A maternidade, na verdade, tem pouco ou nada a ver com qualquer referência que possamos ver num comercial de fraldas. 

Mas se não é essa maternidade que vamos abordar, qual seria? Entre 31 de agosto e 29 de setembro o CINUSP apresenta MALDITO SEJA O FRUTO, uma mostra para discutir maternidades problemáticas e distantes do ideal. Frequentemente mais próximas da nossa realidade, elas trazem à tona difíceis formas de gestação e criação de um novo ser. Além de dois debates, teremos também a pré-estreia do filme paraibano Rebento, filme de estreia do diretor André Morais.

Longe do amor incondicional, do gosto pelo processo de gestação, do cuidado pelos filhos, da dedicação integral à família ou do equilíbrio entre vida familiar e profissional, a mostra apresenta maternidades fora do padrão que questionam o cenário ideal para se criar um filho. Sem se ater a uma única perspectiva sobre o tema, MALDITO SEJA O FRUTO busca ultrapassar a visão limitante atribuída à maternidade e incluir histórias que tensionam essas relações. 

A única parceria da atriz Ingrid Bergman com o diretor Ingmar Bergman, Sonata de Outono aborda o embate entre os desejos pessoais por uma vida profissional e o papel de mãe. No dia 16 de setembro, teremos um debate com a professora Marina Ribeiro, do IPUSP, sobre o filme e a transmissão de feminilidade entre mãe e filha, ou, no caso, o que acontece nessa transmissão quando há a ausência da mãe. O segundo debate da mostra acontece à luz do filme Tully, com a presença de Rachele Ferrari, psicanalista, doutoranda em Psicologia Clínica no IP-USP, com a tese “Sofrimento psíquico na experiência da maternidade”, e professora de pós-graduação no CEFAS em Campinas. 

Uma das formas mais frequentes de se retratar a maternidade problemática aparece no gênero de terror. Através do sobrenatural, é possível criar diálogos sobre questões que preferimos ignorar na vida real, como, por exemplo, a perda da autonomia da mãe vista em O bebê de Rosemary. Sendo colocada como louca, a protagonista do filme sofre constantes imposições daqueles ao seu redor e passa a carregar em si um filho do demônio. O filme abre a discussão sobre a gravidez como um rito de passagem em que a mulher supostamente deve abandonar sua individualidade para se dedicar aos filhos. 

Ainda na temática da gestação, Prevenge aborda, com o típico humor ácido britânico, a inferiorização sofrida pela gestante e, mais que isso, a solidão de ser mãe solteira. Tratada como incapaz por todos, a protagonista surpreende ao trilhar uma jornada de assassinatos, guiada pela suposta voz do filho em sua barriga. Como a maioria das produções em exibição, Prevenge é dirigido por uma mulher, Alice Lowe, que também atua e roteiriza o filme, durante sua própria gravidez. 

Outras diretoras presentes na mostra são Andrea Arnold (Wasp), Clio Barnard (A rua Arbor), Emily Atef (O estranho em mim), Erin Lee Carr (Mamãe morta e querida), Jennifer Kent (O Babadook) e Lynne Ramsay (Precisamos falar sobre o Kevin). As narrativas criadas por essas óticas femininas perpassam mães jovens, solteiras, marcadas por ciclos de abuso, em depressão e com outros problemas psicológicos, assim como filhas e filhos desajustados, problemáticos e, por vezes, perigosos.

Hereditário, Madonas e As filhas de Abril são histórias diferentes que podem ser comparadas pela maneira que lidam com as formas cíclicas de criação abusiva, e com o transtorno causados aos filhos. As avós, cada uma a seu modo, são o ponto em comum do acúmulo de traumas através das gerações.

Os direitos de escolha da mulher sobre sua gestação e o direito de interrompê-la são o assunto do filme romeno 4 meses, 3 semanas e 2 dias, uma odisseia situada nos anos 80, quando o aborto era passível de pena de morte. Ainda sobre a recusa da maternidade, o russo Ayka retrata o drama de uma imigrante ilegal que chega ao ponto de oferecer seu filho recém-nascido à máfia para pagar suas dívidas e se manter no país.

Teremos também uma maratona da primeira temporada de The handmaid’s tale (O conto da aia) dividida em dois dias. A série, que vem se destacando junto a premiações, críticas e público, teve oito dos dez episódios da temporada dirigidos por mulheres.

Alguns filmes, mesmo com imagens fortes, apresentam argumentos contundentes para criar indagações sobre a devoção, decisão e propósito da maternidade, buscando diferentes perspectivas sobre os objetivos individuais de vida dessas pessoas. O CINUSP convida a todos para dessacralizar a maternidade e refletir sobre a distância entre uma árvore e seu fruto.

    Boas sessões!