EM CARTAZ

MOSTRASH: SANGUE, TERROR E TRIPAS


A história do cinema é marcada por atualizações. Tanto os temas quanto as técnicas estão em constante processo de transformação, alcançando novos níveis de complexidade e diversidade para dialogar com o público.

Equipamentos maravilhosos dignos de filmes de ficção científica, roteiros trabalhados para fazer o espectador pensar sobre a vida e suas nuances, a brisa do vento na grama alta em 4K... Mas e o dito cinema “lixo”?

O cinema sujo, mambembe, improvisado, de temas torpes, de personagens estranhos, sangue em profusão, tripas de fora, que não atende a padrões morais e não está tão preocupado com normas técnicas ou artísticas? Mostrash: sangue, terror e tripas é a nova mostra do CINUSP que vai chafurdar na lama do cinema trash e mostrar que até no lixão nasce flor.

Rezam as lendas que o trash sempre esteve entre nós desde a invenção do cinema - uma vez que produções ruins e de baixo orçamento que tentavam, mas não conseguiam, ser levadas a sério sempre existiram. Esses filmes começaram a receber mais atenção na década de 1950, com obras consideradas “B” pela qualidade inferior em termos de produção, falta de nomes de peso no elenco ou pelos lugares onde eram exibidos. 

Entre os filmes considerados de segunda categoria, alguns brilhavam como lixo atômico, dado a radioatividade de suas más escolhas de direção e a toxicidade de suas condições de produção.

Ao contrário dos filmes “A”, que viriam a se tornar grandes medalhões exibidos em salas nobres, esses filmes paupérrimos, muitos de terror e ficção-científica, se embrenharam nas grindhouses - cinemas especializados em filmes “B” e trash - fazendo as pessoas rirem de seus recursos precários, mas criando um verdadeiro culto de fãs que garantiriam a fama de diretores como Ed Wood e Jesús Franco - ambos presentes na mostra.

Com o tempo, o cinema - o de arte, os blockbusters e o “B” - continuou se aperfeiçoando para manter o interesse do público, mas o primo pobre dessas obras não seria esquecido pela legião de fãs que cativou. E foram esses fãs os maiores responsáveis por continuar impulsionando a produção trash.

A acessibilidade aos meios de produção audiovisual foi crescendo e as dificuldades técnicas foram ficando mais atenuadas. Logo o cinema  trash já não era mais definido única e exclusivamente pelas más condições das produções, mas sim pela herança temática dos filmes que continuavam explorando o terror e a ficção-científica de formas cada vez mais inesperadas - com alienígenas donos de redes de fast food e múmias com muito desejo sexual, por exemplo. Além disso, a criatividade dos realizadores e o apelo visual deixados na mente de seus cultos de seguidores também ajudou o lixo a ter características próprias e únicas que definiam sua aparência e forma - como o já conhecido gosto pelos banhos de sangue falso e o prazer em mostrar que o corpo humano não é tão resistente quanto gostaríamos.

Essa herança foi responsável por levar o trash a lugares antes inimagináveis para as pessoas que iam fielmente às salas de cinema para assistir essas obras. Filmes que contam histórias de pneus assassinos foram aplaudidos em festivais como o de Cannes - vaiados por parte da platéia também, o que não significa muito para o trash! Outros que falam sobre palhaços homicidas que sofrem de amor receberam prêmios Goya e também no festival de Veneza.

E se esses filmes começaram sendo ruins “sem querer”, com o crescente sucesso, logo surgiriam produtoras especializadas, trabalhando com baixo orçamento e muita inventividade para criar filmes propositalmente tão ruins que se tornaram marcos adorados pelos fãs da tosquice - e para quem mais se arriscasse com o coração aberto, mas estando disposto a ter o estômago revirado.

A Troma Entertainment - uma produtora estadunidense - é um marco nesse seguimento e trouxe para as telas obras como O vingador tóxico, que com muita violência e um humor ácido, sarcástico e muito cruel faz uma crítica à hipocrisia dos cidadãos adeptos da moral e dos bons costumes em uma sociedade onde até mesmo os heróis são torpes e problemáticos.

E o culto se espalhou mundo afora tal qual uma horda de zumbis controlados por alienígenas. O cinema trash tem diversos representantes no Japão, Itália, Espanha, Brasil, Alemanha… Todos bem representados na mostra. 

Obras como o primeiro filme do premiado diretor Peter Jackson, adaptações de quadrinhos que falam sobre preservativos assassinos de autores como o alemão Ralf König - um dos quadrinistas alemães mais conhecidos e populares -, e filmes protagonizados por bandas de garage rock japonesas ainda em atividade - lutando contra zumbis.

E se entre arte e público o cinema trash conseguiu seu lugar, na política seus temas muitas vezes controversos se fizeram notar, como foi o caso do ícone subversivo Zé do Caixão - criado pelo diretor José Mojica Marins - que sofreu na ditadura brasileira devido à sua postura que ia de encontro aos valores defendidos pelos então governantes do país e que têm lugar nessa mostra por sua relevância.

E se por um lado o cinema trash merece ser conhecido, por outro é importante que existam discussões sobre alguns de seus traços. A representação feminina nos filmes de terror - seja o trash, gore, slasher ou qualquer outra vertente - já levantou questionamentos por conta dos filmes muitas vezes objetificantes e que colocam a mulher em um lugar caricato e irreal. O CINUSP realizará um debate sobre o tema no dia 21/08, após a exibição do filme Massacre na festa do pijama, com a cineasta Larissa Anzoategui.

Esses filmes já foram chamados de “lixo”, tratados como piadas, motivos de chacota, mas foi a capacidade de transformar seus defeitos em coisas únicas, e o caráter cativante das produções, que fez com que o trash resistisse e se tornasse um estilo. Quando os fãs abraçaram as características desses filmes e levaram diversos deles ao status de cult, criou-se um nicho que ganhou espaço e hoje em dia consegue se manter e se proliferar - tal qual as criaturas que tantas vezes retratam. O CINUSP convida a todos para se esbaldarem nesse cinema multifacetado e rico - em histórias inusitadas e em muito sangue, claro.

 

Boas Sessões!