GATOS, GATINHOS E GATÕES


Existe um animal que representa, ao mesmo tempo, o bem e o mal, azar e sorte, que é amado por uns e odiado por outros. São seres místicos, considerados sobrenaturais, que caem sempre de pé, que se reúnem em telhados na calada da noite e possuem um total de sete vidas – paralelamente, são os companheiros que sentam no sofá de suas casas e miam pedindo leite. A fim de refletir sobre a figura do gato no cinema, entre os dias 3 e 16 de junho, o CINUSP apresenta a mostra “Gatos, Gatinhos e Gatões”

A mostra propõe incluir todas as facetas da figura do felino, desde companheiros até assassinos, colocando-os tanto como a origem do conflito de outros, tanto como protagonistas de suas próprias histórias, tendo que enfrentar suas dificuldades específicas e animais. 

Existem histórias que só poderiam acontecer com a presença do gato - sem ele, simplesmente não haveria filme. O gato, aqui, seria um mecanismo narrativo para os protagonistas seguirem com suas próprias jornadas. É o caso de O Gato Negro, do diretor italiano Lucio Fulci, onde se explora a superstição sobre o gato preto enquanto presságio para o azar, desencadeando diversas mortes ao longo do filme em um roteiro com inspirações claras na obra homônima de Edgar Allan Poe. 

Andando um pouco mais sob a sombra do horror, apresentamos o longa de Hong Kong O Gato. Baseado num romance do escritor Ni Kuang, o filme possui aspectos surrealistas, que em muito lembram “Hausu”, mesclando aspectos de comédia com terror e subvertendo a ideia do gato preto enquanto sinônimo de azar; aqui é ele quem ajuda na luta contra o mal. Inclusive, vale ressaltar as cenas de lutas mirabolantes do gato contra os inimigos, nas quais o diretor utilizou diversos recursos práticos (desde gatos reais, até bonecos cênicos) para tornar as batalhas ainda mais épicas.

A analogia do felino como elemento do horror também está presente na obra Sangue de Pantera, de Jacques Tourneur. O enredo se desenrola através da exploração de uma lenda da terra natal da protagonista, que acredita ser descendente de uma tribo cujos integrantes transformam-se em panteras negras. Afinal, o que é uma pantera se não um gato grande e preto? O filme, através da linguagem de gênero de suspense psicológico, aproxima a natureza selvagem do ser humano e do felino, apresentando uma nova alegoria para o gato preto: este não é mais um signo de azar, mas sim de incompreensão. Compartilhando da ideia de não pertencimento, será exibido conjuntamente o curta-metragem A Gatinha, da pintora e cineasta iraniana Shiva Sadegh Assadi, que trabalha com uma pintura soturna sobre vidro e aborda a necessidade de transformação para se encaixar em algum lugar. 

Partindo para outro clássico americano, a comédia protagonizada por Katharine Hepburn e Cary Grant, Levada da Breca, também subverte uma outra ideia comum: a do instinto selvagem dos felinos, de modo a tentar convencer o espectador que o filhote de leopardo chamado de “Baby” é tão inofensivo quanto um filhote de gatinho. No filme, a personagem de Hepburn usa o “gatão” como uma forma de atrair o homem pelo qual é apaixonada, e é claro que isso ocasiona uma sucessão de problemas sem fim.

A ideia da utilização do gato como meio para alcançar algo, seja emocional ou material, também está presente no filme brasileiro O Gato de Madame, estrelado por Mazzaropi, acompanha um simples engraxate que passa a ser seguido por um gato que fugiu do lar de sua dona rica e, ao ser oferecida uma recompensa pelo animal, o protagonista passa a ser perseguido por uma gangue de mafiosos. Tal como na comédia estadunidense, o protagonista precisa se virar para não ser pego no pulo do gato.

No entanto, é preciso considerar que essa fama dos gatos atraírem a má sorte ou confusão não é unânime em todas as culturas, e muito menos em todos os filmes. No longa japonês Cats on Park Avenue, de Shinichi Nakada, os gatos de rua não são um símbolo de azar ou de ódio, mas sim uma espécie de musa inspiradora que estimula as personagens na criação de um musical sobre os mesmos.

Contudo, essa não seria uma verdadeira mostra de gatos se os filmes só os colocassem enquanto objetos dramáticos - afinal, os gatos também são heróis de seus próprios filmes. Um dos maiores exemplos recentes é Gato de Botas 2: O Último Pedido no qual o icônico gatinho, famoso por suas aparições nos filmes de “Shrek”, se desilude ao encarar sua própria mortalidade, pois está no final das suas sete vidas. Sem outra opção - afinal, quem não tem cão, caça com gato - o personagem se arrisca em uma missão para mudar seu destino. Outra animação que aborda a aventura de autoconhecimento de um felino é a Viagem Noturna no Trem da Via Láctea. Através de visuais deslumbrantes, o filme segue a história de Giovanni, um gatinho de vida difícil que, junto de seu amigo, embarca em uma viagem pela Via Láctea, uma jornada que apenas no final revela seu propósito.

Continuando na viagem lúdica da imaginação, exibiremos o clássico tcheco Um dia, um Gato. Restaurado recentemente, a obra acompanha um gato com poderes de revelar os verdadeiros desejos das pessoas para quem olha – sendo amado pelas crianças e temido pelos adultos – e os conflitos que gera por onde passa.

E finalmente, temos Aristogatas, a última produção aprovada por um dos cofundadores da Disney, que acompanha a trajetória de Duquesa e seus três filhotes que foram sequestrados de sua casa pelo mordomo. Na tentativa de voltarem para casa, contam com a ajuda do galanteador gato de rua Thomas O'Malley, que introduz uma nova realidade, mostrando que os gatos apesar de terem nascido pobres, também nasceram livres. 

Os filmes trazem múltiplas perspectivas da figura do gato, tornando-o um animal pluridimensional e que reúne contradições diversas em si próprio, pois podem ser os heróis e vilões do cinema, ferramentas de tramas assustadoras ou cômicas, ou até mesmo alegorias que aproximam o ser humano de um felino – afinal, somos mais parecidos com eles do que imaginamos. O CINUSP convida o espectador a abraçar seu lado animal e refletir sobre as diferentes vidas que os felinos ocupam em nossas telas.

Boas Sessões. Miau