A FESTA NÃO PODE PARAR

A música toca em alto volume, as luzes piscam, coloridas, e a multidão se move em um ritmo coletivo. A experiência de uma boa festa é, fundamentalmente, sensorial, combinando todo tipo de estímulo em uma única noite. O CINUSP começa o ano de 2026 e garante que A Festa Não Pode Parar, apresentando uma seleção de dezessete programas que abrem todo um universo dos filmes sobre festas, que vão dos bailes de máscara às raves de eletrônica, procurando a ilustração dos acasos que uma noite fora de casa pode trazer.
Poucos gêneros musicais são mais associados ao ambiente da festa do que a Disco, que surge nas pistas de dança no final dos anos 60 em Nova York e na Filadélfia. Atingindo um pico de popularidade nos anos 70, sua predominância cultural resultou em filmes icônicos como Os Embalos de Sábado à Noite. O filme de John Badham estrelado por John Travolta gerou algumas das imagens mais associadas às discotecas e ao estilo de vida dos entusiastas do gênero. Ao som de Bee Gees, o personagem Tony Manero navega os altos e baixos dessa cultura, em um filme que disseca a ilusão gloriosa das luzes coloridas e se constrói em tom ambíguo, devastador. Os Últimos Embalos da Disco, de Whit Stillman, já se passa nos derradeiros momentos dos clubes de Nova York, com a década de 80 já vendo o declínio da Disco nas paradas e na influência cultural dos Estados Unidos. O filme conta a história de duas jovens no malabarismo entre seus empregos entediantes e suas vidas sociais conturbadas, repletas de amizades tóxicas e pretendentes mais ainda. Com o costumeiro estilo naturalista de Stillman e suas personagens problemáticas mas completamente humanas, interpretadas pelas brilhantes Chloë Sevigny e Kate Beckinsale, o filme lança um afetuoso olhar para uma juventude confusa.
A juventude, momento da vida em que as saídas noturnas se tornam eventos de grande capital social, é marcada por essa ansiedade de se encontrar e firmar seu caminho. Em U.S. Go Home, da diretora francesa Claire Denis, a personagem de Martine tem uma intenção clara, a de perder a virgindade, e ir a uma festa com sua amiga adquire uma condição de urgência. No filme lançado como parte de uma antologia que pedia a vários diretores um retrato da adolescência em diferentes décadas no país, a confusão de Martine se torna clara assim que as garotas chegam na festa, que não se parece em nada com o que ela estava sonhando. Essa mistura de expectativa com insegurança também está presente em Booksmart, filme estadunidense de Olivia Wilde. O filme mostra a tentativa de duas adolescentes de recuperar o tempo perdido com os estudos em uma única noite, emendando uma festa na outra na véspera de sua graduação. O tom colegial traz a inocência dessas personagens e de suas visões de mundo, mas também atualiza essa história para os tempos atuais. De alguma forma, ele pode ser visto como uma resposta a “Superbad”, emblemático filme adolescente de uma década anterior com uma premissa parecida. Outro integrante desse universo dos adolescentes desajeitados que buscam a glória da popularidade é Projeto X, dirigido por Nima Nourizadeh. O filme tem uma linguagem própria ao usar do estilo “found footage”, onde suas imagens são apresentadas como registros reais de uma festa caseira que sai do controle de maneira exageradamente cômica. A trilha musical, fiel aos hits do início dos anos 2010, ajuda a arredondar o que tinha tudo para ser apenas mais um filme duvidoso para o público jovem, mas se torna um retrato honesto, e carinhoso, dos adolescentes que pouco se importam com as consequências de seus desejos.
Explorar as possibilidades dessa vida noturna se mostra um dos caminhos mais importantes nos filmes que focam nas festas e baladas como cenários para suas narrativas. Assim como as festas de Disco nos anos 60, as boates de Taipei em Millennium Mambo servem como um escape para a protagonista do filme de Hou Hsiao-hsien, que encontra refúgio no mundo inebriado do consumo e das drogas. Situado em 2001, o longa olha languidamente para essas casas noturnas do novo milênio, seus perigos e suas maravilhas. Em Lovers Rock, filme que faz parte de uma antologia sobre imigrantes de Steve McQueen, o diretor observa uma noite de celebração que por sua vez age como porto seguro. Para a comunidade negra na Londres dos anos 80, os bares e estabelecimentos comerciais apresentavam uma série de problemas, desde o preconceito dos donos desses locais até a falta de diversidade cultural. É daí que surge a “house party” no filme, transformando uma casa de bairro em um espaço onde a música, a comida e o jeito de festejar são únicos e especiais. A direção de McQueen também é paciente e sensível, deixando as músicas tocarem até o fim nas cenas na pista de dança.
Quando tratamos de cidades grandes, com cenas culturais borbulhantes e vivas, é comum que o caráter de suas festas ajude a definir a própria relação das pessoas com as ruas e bairros que vivem. O Carnaval carioca é um grande exemplo dessa conjuntura, e é filmado como ninguém por Walter Lima Jr. em A Lira do Delírio. A festa carnavalesca permeia tudo que vemos em cena, desde os momentos de folia e alegria até as aflições, que não faltam nessa história em que os personagens se movimentam ao redor do sequestro de um bebê. O filme assume o clima embriagado do feriado que reconfigura a cidade, e as cores e texturas impressionam na cópia em 35mm que será exibida em nossas sessões. A cidade, agora se tratando da capital francesa, também é o fio condutor em Paris no Verão, do mestre Jacques Rivette. O francês faz um musical em seus próprios termos, incorporando canções e cenas de dança na história entrelaçada de três mulheres que transitam pela Paris dos anos 90. A vida noturna aproxima os estilos de vida profundamente diferentes dessas personagens. O cotidiano da cidade se mescla com a narrativa de maneira fluida e delicada, e a direção trabalha de forma poética com o movimento dos corpos nas sequências mais abstratas.
Retratar as engrenagens dessas festas – o trabalho necessário para que elas aconteçam e as vontades de seus organizadores – é uma das maneiras de trabalhar narrativamente com o espaço e o estilo de vida noturno. No filme Go Go Tales, de Abel Ferrara, Ray é o dono de um clube de striptease com problemas financeiros, e passa toda a duração do longa tentando reaver um bilhete de loteria que pode alterar o destino de suas ambições. Olhando de maneira cômica e trágica para essa personagem e para as condições de trabalho que se escondem atrás da ilusão da noite inconsequente, Ferrara expõe a artificialidade dessas relações de prazer. Wilson Barros faz um movimento parecido no seu Anjos da Noite, filme marcante do cinema paulista “da Vila.” Adentrando o submundo do show business metropolitano, o filme mostra a violência e a corrupção que mantêm as aparências das mais influentes figuras da noite, que circulam em baladas e shows. Barros trabalha várias histórias que se cruzam, tratando de intrigas profissionais até crimes passionais, gerando uma rede de conflitos que deixa a narrativa em constante tensão. O ambiente urbano é essencial para o funcionamento dessas estruturas, sua magnitude servindo como fachada para que qualquer consequência da noite seja abafada até a manhã.
O uso de drogas, marcado nas subculturas jovens por todo o mundo, se torna parte da identidade de cenas culturais, e no cinema tende a demonstrar os altos e baixos que podem ser atingidos pelos que se deixam levar demais. Em Human Traffic, de Justin Kerrigan, os anos 90 no País de Gales são vistos pelos olhos de amigos que se preparam para um fim de semana regado a entorpecentes e alucinógenos. A música eletrônica permeia toda essa cultura clubber, servindo de trilha musical para o espírito de uma época e ditando o ritmo da montagem frenética e divertida que lembra a de “Trainspotting”, filme de alguns anos antes. Do outro lado do Atlântico, o trabalho de Fenton Bailey e Randy Barbato em Party Monster retrata o mesmo espírito na comunidade queer de Nova York. Tanto o filme de 2003 quanto o documentário sobre a mesma cena rodado alguns anos antes, apresentados em sessão dupla, narram a vida de Michael Alig, club kid e promotor de festas que vive uma história de ascensão e queda, marcada pelos excessos de seu estilo de vida. Um filme mais recente mas que também trabalha de maneira íntima com esse tipo de cena é Climax de Gaspar Noé, com seu elenco composto quase que inteiramente por dançarinos não-atores. Retratando uma noite de celebração entre artistas que acaba espiralando para o caos após o uso acidental de LSD, a direção alucinada de Noé se soma às músicas de nomes como o da dupla Dopplereffekt para garantir que assistir ao filme seja uma experiência inesquecível.
Se os elementos dessas festas são capazes, então, de definir culturalmente suas cidades, isso as torna importantes objetos históricos, retratos antropológicos da maneira como as relações sociais se caracterizam em diferentes épocas. O baile de máscaras em Madame Satã, filme de 1930 do diretor Cecil B. DeMille, serve como exemplo dessa possível leitura – os figurinos, a rigidez de suas dinâmicas e a própria localização do evento, em um zepelim suspenso no ar, são diferentes figurações do tipo de festa que era possível nos Estados Unidos daqueles tempos. É o mesmo resultado dos biquinis neon e dos funis de cerveja de Spring Breakers, de Harmony Korine, que em 2012 também impressionou ao encapsular perfeitamente o início dos anos 2010, nesse filme controverso, bagunçado e fascinante. Enterradas sob camadas de ironia e glamourização, as ideias de “Spring Breakers” também pretendem esmiuçar o que define uma época a partir de sua juventude e do que é transgressivo e divertido para ela.
Característica definidora dessas festas, essencial para suas compreensões nesse recorte histórico, a música sempre tem papel importante para o clima de um evento, definindo seu tom. Nos filmes a trilha musical tem um papel parecido, se tornando um dos aspectos mais memoráveis das obras, e às vezes sendo o principal foco de suas leituras. No anime Interstella 5555, isso é especialmente verdadeiro – o filme nasce como um visualizador para o álbum “Discovery”, da dupla eletrônica Daft Punk, com hits como “One More Time” e “Harder Better Faster Stronger”. Toda a narrativa do filme foi inventada justamente para se encaixar perfeitamente no ritmo e no registro das músicas, que vão das mais agitadas até melodias soturnas e melancólicas. Inspirado nos animes que marcaram a infância dos artistas, e animado por alguns de seus heróis na Toei Animation, os temas de resistência e perseverança unem “Interstella” ao curta-metragem que o acompanha em sessão dupla: Rock Doido - O Filme, de Gaby Amarantos. Dirigido pela própria artista em colaboração com Guilherme Takshy e Naré, o curta foi lançado ao mesmo tempo que o álbum de mesmo nome, e tem também o propósito de ilustrar as faixas do projeto no audiovisual. Cheio de participações especiais e constantemente divertido, o filme gravado em plano-sequência é uma maneira fascinante de entender o apelo do tecnobrega e de seus exageros.
Durante todo o mês de fevereiro, a festa não para aqui no CINUSP. Convidamos vocês para assistir e curtir esse panorama de filmes que exploram as tantas maneiras de se festejar e de retratar suas motivações e transformações.
Boas sessões!