EM CARTAZ

PARA GOSTAR DE CINEMA


Entre os dias 2 e 29 de março, o CINUSP realiza a mostra Para gostar de cinema. Uma vasta seleção de filmes que revela um percurso cinematográfico que cruza uma história, mais pelo caminho de um ziguezague do que por uma linha reta, ou ainda num movimento que se assemelha a uma linha de costura sobre o grande tecido das imagens. Surge daí uma roupagem bastante específica, norteada pelo objetivo já expresso no título da mostra: apresentar o mundo do cinema, e até mesmo a própria sala de exibição, como algo com o qual se trava uma relação de interesse, de deslumbramento, de gosto. O cinema é, assim, colocado numa relação bastante complexa, para não dizer confusa, com a vida — há algo de próximo e de distante, e a aparência das imagens numa sala escura, numa tela grande, é capaz de ser devoradora. Não se sai de uma sala de cinema da mesma maneira que se entrou.

O estabelecimento de um determinado “espaço” curatorial de inclusão e exclusão funciona como a construção de um mapa através do qual é possível percorrer um território simbolizado — neste caso, a entidade tanto mística quanto institucional que compõe aquilo que se chama “cinema”. A partir daí, o comentário funciona como uma espécie de fragmentação deste espaço, como que se inscrevendo nos espaços vazios, nas lacunas e nos buracos, naquilo que não é dito, como a voz do silêncio: além deste texto de apresentação, o CINUSP realiza um comentário individual para cada filme, registrando impressões e opiniões, realizado pelos membros da equipe, composta por estudantes de diversos cursos de graduação. 

O cinema é mais intangível do que parece — lembremos, na sala de cinema a tela está sempre alta e longe: toda projeção revela mais a potência da descoberta de um novo segredo do que a efetividade de uma certeza. Ver um filme é descobrir um ator ou atriz jamais visto, um movimento de câmera inesperado, uma paisagem que se procura rever. É como no mundo dos sonhos: um bom sonho nos impele a rever o lugar que sonhamos, a ir até lá, acordado, apenas para ver quais espantos e deslumbres podem ser revelados. Mas há, também, os sonhos inquietos, que nos acordam à noite, que não nos deixam dormir. É possível às vezes, inclusive, que sonhos contem histórias: às vezes mais coesas, às vezes mais fragmentárias. De qualquer forma, através das imagens e dos sons, as histórias nos impactam, e há sempre novos sonhos. Não é possível regulamentá-los: cada noite — e cada filme — é um novo medo e uma nova esperança; o mesmo se passa com a sala de cinema — até porque é sempre possível ir numa sala de cinema para dormir, e sonhar.

Os irmãos Lumière — ditos “inventores” do cinema apenas porque, não nos esqueçamos, o cinema é uma arte da máquina — diziam que “o cinema é uma invenção sem futuro”: o que estava em jogo aqui era a impressão de que o cinematógrafo era um trambolho muito científico, com pouca aplicação comercial. Mas a história mostrou bem como a máquina do cinema não só superou como também destruiu tudo que tocou. O cinema se transformou numa grande máquina de multiplicação da realidade — não necessariamente uma alienação em relação à profundidade do mundo, mas sim a criação de outros mundos compostos por superfícies sobre as quais é possível deslizar. Se era em razão da câmera que os Lumière rejeitavam o futuro do cinema, foi a tela e a sala de projeção que fizeram com que o cinema triunfasse. Quer dizer, as determinações socioculturais, para não dizer políticas, não passam marginalmente pela experiência do cinema, mas sim constituem simultaneamente seu centro e seu entorno. Ainda que realize uma multiplicação do mundo, o cinema não se inscreve fora do real: só é possível conhecer esses novos mundos vendo os filmes, indo ao cinema, numa grande perambulação física, mental e sensorial. 

A mostra Para gostar de cinema procura evidenciar isso, e o conjunto de filmes aqui, mais do que ser uma articulação de todas as possibilidades, é um vislumbre do que pode vir a ser possível. Apresentar um panorama admirável, dar a ver uma paisagem e seus contornos. Toda captura mostra sempre novos horizontes — o olho é como um globo, mas a planificação de sua superfície, aquilo que constitui o gesto cinematográfico, aponta muito mais para a continuidade de qualquer visão do que para a fatalidade de qualquer olhar. Não há mapa, nem prescrição: qualquer filme é mais misterioso do que parece, e o que um filme desperta é tão indizível quanto o silêncio. O CINUSP contém uma programação corrente que atravessa o ano, com duas sessões diárias, uma série de mostras, uma variedade de filmes, uma multiplicidade de encontros. E o que marca esta constituição é, fundamentalmente, a expansão, e não o fechamento, proporcionado por qualquer recorte e por qualquer delimitação — a intangibilidade de uma imagem sempre aqui e mais longe. Não há imposição ou norma capaz de regulamentar o excesso de luz: e aí mora o cinema, entre a câmera e o mundo, entre o projetor e a tela, entre o dentro e o fora. Uma arte dos espaços vazios, sim, mas que são sempre habitáveis — há sempre algo a mais a ser dito, há sempre algo a mais a ser contado. Há uma potência das imagens que é revelada através das histórias, assim como há uma potência das histórias revelada através das imagens. 

Há, simultaneamente, uma discussão de gosto, mas regulamentações estéticas são apenas tendências e generalizações, hierarquias vazias. Nada disso é capaz de plenamente suprimir aquilo que sempre resta por dizer: o silêncio e o imperceptível se mostram então como as categorias fundamentais do som e da visão. Quer dizer, é o mistério que torna possível a descoberta, é o escuro da sala de cinema que torna possível a exibição do filme, é atravessando o escuro que surge a luz, é atravessando o silêncio que surge o som. Na história do cinema, esta grande deambulação, é a potência dos filmes não vistos que se mostra como princípio motor: invenção sem futuro, arte sem passado, criação sem presente, todo um mundo a ser explorado, descoberto. E é esse motor que nos impele a entrar numa sala de cinema e ver esse filme que está passando, a vir de novo e ver outro, a continuar vindo. Nada disso está a serviço de uma solidificação, de uma identificação ou de uma regulamentação: a tela é muito grande, a sala é muito escura, a fluidez de um olho libertado põe em xeque os apontamentos e as direções, e a superfície desfigurada das imagens é sempre capaz de revelar novos mistérios insondáveis.

Ainda que a crítica exija um derradeiro esforço, o inominável não se curva à palavra, o imperceptível não se curva ao olho, o silêncio não se curva ao ouvido: não há filme que seja capaz de dizer sequer uma verdade sobre o cinema sem deixar duas outras por dizer, não há cinema que seja capaz de exibir sequer um filme sem deixar outros dois por exibir, não há imagem que seja capaz de mostrar sequer uma coisa sem deixar outras duas por mostrar… E é essa a máquina, máquina de produção e não de insuficiência: o cinema como multiplicação do mundo. O CINUSP, cinema universitário que, em grande parte, lida com uma dinâmica de produção articulada por estudantes de diversos cursos, abre uma janela para depois abrir uma porta, inaugura um espaço para depois fazer um convite. O cinema, que para ser uma arte precisa também ser uma indústria — e uma indústria inserida num contexto de produção e de consumação muito bem demarcado —, pode-se encontrar, aqui, transfigurado, quase irreconhecível. O espaço universitário é antes de tudo um lugar de ambiguidades, de heterodoxias e mesmo de incongruências: só há potência e criação onde há indeterminação e dúvida. Antes das soluções, os problemas: de certa forma, é sobre eles que o CINUSP se debruça. Há o espanto antes da certeza, há o assombro antes da verdade. Os filmes aqui presentes, seja agora ou no curso do ano, são mais pontos de dispersão do que centros de resolução, e apontam mais para os mundos possíveis do que para as realidades necessárias. Não há caminho certo a se percorrer: a única coisa que se pode imaginar antes de entrar em uma sala escura é uma tela em branco, a princípio. A partir daí, surgem outras histórias.

 

Boas sessões!