A FESTA NÃO PODE PARAR


A música ressoa em alto volume, as luzes piscam, coloridas, e a multidão se move em um ritmo coletivo. A experiência de uma boa festa é, fundamentalmente, sensorial, combinando todo tipo de estímulo em uma única noite. É certo que o cinema contém inúmeras sequências icônicas em festas e casas noturnas, mas o potencial desses ambientes é tanto que também não faltam obras completamente centradas na atmosfera noturna, suas possibilidades, seu espaço de liberdade e descobrimento. O CINUSP começa o ano de 2026 garantindo que A Festa Não Pode Parar, apresentando uma seleção de dezessete programas que abrem todo um universo dos filmes sobre festas, que vão dos bailes de máscara às raves de eletrônica, procurando a ilustração do que uma noite fora de casa pode trazer, quando se vai ao lugar certo.

 

Um dos momentos-chave da adolescência é o início de uma vida noturna, quando as saídas com amigos deixam de ser aniversários e festas do pijama e começam a se tornar eventos de grande capital social. Nesse momento de crescimento, é fácil ver uma festa como o evento mais importante do ano, ou até da vida até então – é a oportunidade da performance de maturidade, da exploração sexual, das experiências formativas que poderão definir todo o resto dos anos escolares. Em U.S. Go Home, da diretora francesa Claire Denis, a personagem de Martine tem uma intenção clara, a de perder a virgindade, e ir a uma festa com sua amiga adquire uma condição de urgência. No curto filme, lançado como parte de uma antologia da TV francesa que pedia a vários diretores um retrato da juventude em diferentes décadas no país, a confusão dos próprios sentimentos de Martine se torna clara assim que as garotas chegam na festa, que não se parece em nada com o que ela estava sonhando. Essa mistura de expectativa com insegurança também está presente em Booksmart, filme estadunidense de Olivia Wilde. Acompanhando duas adolescentes que sentem ter desperdiçado seu tempo com os estudos ao chegar no fim do ensino médio, o filme mostra a tentativa de recuperar o tempo perdido em uma única noite, emendando uma festa na outra. O tom colegial traz a inocência dessas personagens e de suas visões de mundo, mas também trilha um caminho sensível ao atualizar essa história para os tempos atuais. De alguma forma, ele pode ser visto como uma resposta a “Superbad”, emblemático filme adolescente de uma década anterior com uma premissa indisputadamente parecida. Outro integrante desse universo dos adolescentes desajeitados que buscam a glória da popularidade é Projeto X, dirigido por Nima Nourizadeh. O filme tem uma linguagem própria ao usar do estilo “found footage”, onde suas imagens são apresentadas como registros reais de uma festa caseira que sai do controle de maneira exageradamente cômica. A trilha sonora, plenamente fiel aos hits do início dos anos 2010, ajuda a arredondar o que tinha tudo para ser apenas mais um filme duvidoso para o público jovem, mas se torna um retrato honesto, e carinhoso, dos adolescentes que pouco se importam com as consequências de seus desejos.

 

O uso de drogas é marcado nas festas adolescentes, servindo como símbolo da independência dessa juventude perante as regras do mundo adulto. Essas substâncias são parte de diversas subculturas jovens por todo o mundo, seu uso fazendo parte da identidade de cenas culturais. Em Human Traffic, de Justin Kerrigan, os anos 90 no País de Gales são vistos pelos olhos de amigos que se preparam para um fim de semana regado de entorpecentes e alucinógenos. A música eletrônica permeia toda essa cultura clubber, servindo de trilha sonora para o espírito de uma época e ditando o ritmo da montagem frenética e divertida que lembra a de “Trainspotting”, filme de alguns anos antes. Do outro lado do Atlântico, o trabalho de Fenton Bailey e Randy Barbato em Party Monster retrata o mesmo espírito na comunidade queer de Nova York. Tanto o filme de 2003 quanto o documentário sobre a mesma cena rodado alguns anos antes, apresentados em sessão dupla, narram a vida de Michael Alig, club kid e promotor de festas que vive uma história de ascensão e queda, marcada pelos excessos de seu estilo de vida. Um filme mais recente mas que também trabalha de maneira íntima com esse tipo de cena é o Climax de Gaspar Noé, com seu elenco composto quase que inteiramente por dançarinos não-atores. Retratando uma noite de celebração entre artistas que acaba espiralando para o caos após o uso acidental de LSD, a direção alucinada de Noé se soma às músicas de nomes importantes, como da dupla Dopplereffekt, para garantir que assistir ao filme seja uma experiência inesquecível.

 

A música é elemento essencial da festa, comumente sendo o diferencial que dá a um evento sua personalidade e atrai seu público específico. Nos filmes, a trilha sonora tem um papel parecido, se tornando um dos aspectos mais memoráveis das obras e definindo o tom de suas leituras. No anime Interstella 5555, isso é especialmente verdadeiro – o filme nasce como um visualizador para as faixas do álbum “Discovery”, clássico da dupla eletrônica Daft Punk, com hits como “One More Time” e “Harder Better Faster Stronger”. Toda a narrativa do filme, que conta a história de músicos alienígenas sequestrados na Terra e da missão ambiciosa para seu resgate, foi inventada justamente para se encaixar perfeitamente no ritmo e no registro das músicas, que vão das mais agitadas até melodias soturnas e melancólicas. Inspirado nos animes que marcaram a infância dos artistas, e animado por alguns de seus heróis na Toei Animation, os temas de resistência e perseverança unem “Interstella” ao curta-metragem que o acompanha em sessão dupla: Rock Doido - O Filme, de Gaby Amarantos. Dirigido pela própria artista em colaboração com Guilherme Takshy e Naré, o curta foi lançado ao mesmo tempo que o álbum de mesmo nome, e tem também o propósito de ilustrar as faixas do projeto no audiovisual. Cheio de participações especiais e constantemente divertido, o filme gravado em plano-sequência é uma maneira fascinante de entender o apelo do tecnobrega e de seus exageros deliciosos.

 

Poucos gêneros musicais são mais associados ao ambiente da festa do que a Disco, que surge justamente nas pistas de dança no final dos anos 60 em Nova York e na Filadélfia. Atingindo um pico de popularidade nos anos 70, sua predominância cultural resultou em filmes icônicos como Os Embalos de Sábado à Noite. O filme de John Badham estrelado por John Travolta gerou algumas das imagens mais associadas às discotecas e ao estilo de vida dos entusiastas do gênero. Ao som de Bee Gees, o personagem Tony Manero navega os altos e baixos dessa cultura, em um filme que disseca a ilusão gloriosa das luzes coloridas e se constrói em tom ambíguo, devastador. A Disco, afinal, tinha data pra acabar, com a década de 80 já vendo seu declínio nas paradas e na influência cultural dos Estados Unidos. Os Últimos Embalos da Disco, de Whit Stillman, já se passa nos derradeiros momentos dos clubes de Nova York, e conta a história de duas jovens tentando se entender no malabarismo entre seus empregos entediantes e suas vidas sociais conturbadas. Com o costumeiro estilo naturalista de Stillman, essas personagens circulam por lugares como o Studio 54, famoso por sua reputação e representação, e o filme trata esses “últimos dias” de maneira afetuosa e diretamente ligada às vidas internas das duas amigas.

 

Estudar e entender as possibilidades dessa vida noturna, então, se mostra um dos caminhos mais importantes nos filmes que focam nas festas e baladas como cenários para suas narrativas. Esses ambientes são as locações dos eventos que atraem os personagens durante a noite, e podem assumir diversas formas em diferentes contextos. Assim como as festas disco nos anos 60, as boates de Taipei em Millennium Mambo servem como um escape para a protagonista do filme de Hou Hsiao-hsien, que encontra refúgio no mundo inebriado do consumo e das drogas. Situado em 2001, o longa olha languidamente para essas casas noturnas do novo milênio, seus perigos e suas maravilhas. Em Lovers Rock, filme que faz parte de uma antologia sobre imigrantes de Steve McQueen, o diretor também observa uma noite de celebração que age como porto seguro. Para a comunidade negra na Londres dos anos 80, os bares e estabelecimentos comerciais apresentavam uma série de problemas, desde o preconceito dos donos desses locais até a falta de diversidade cultural. É daí que surge a “house party” no filme, transformando uma casa de bairro em um espaço onde a música, a comida e o jeito de festejar são únicos e especiais. A direção de McQueen também é paciente e sensível, deixando as músicas tocarem até o fim nas cenas na pista de dança.

 

Retratar as engrenagens dessas festas – o trabalho necessário para que elas aconteçam e as vontades de seus organizadores – é então uma das maneiras de trabalhar narrativamente com o espaço e o estilo de vida noturno. No filme Go Go Tales, de Abel Ferrara, Ray é o dono de um clube de striptease com problemas financeiros, e passa toda a duração do longa tentando reaver um bilhete de loteria que pode alterar o destino de suas ambições. Olhando de maneira cômica e trágica para esse personagem e para as condições de trabalho que se escondem atrás da ilusão da noite inconsequente, Ferrara expõe a artificialidade dessas relações de prazer. Wilson Barros faz um movimento parecido no seu Anjos da Noite, filme marcante do cinema paulista “da Vila.” Adentrando o submundo do show business metropolitano, o filme mostra a violência e a corrupção que mantém as aparências das mais influentes figuras da noite, que circulam em baladas e shows. Barros trabalha várias histórias que se cruzam, tratando de intrigas profissionais até crimes passionais, gerando uma rede de conflitos que deixa a narrativa em constante tensão. O ambiente urbano é essencial para o funcionamento dessas estruturas, sua magnitude servindo como fachada para que qualquer consequência da noite seja abafada até a manhã.

 

Quando tratamos dessas cidades grandes, com cenas culturais borbulhantes e vivas, é comum que o caráter de suas festas ajude a definir a própria relação das pessoas com as ruas e bairros que vivem. O Carnaval carioca é um grande exemplo dessa conjuntura, e é filmado como ninguém por Walter Lima Jr. em A Lira do Delírio. A festa carnavalesca permeia tudo que vemos em cena, desde os momentos de folia e alegria até as aflições, que não faltam nessa história em que os personagens se movimentam ao redor do sequestro de um bebê. O filme assume o clima embriagado do feriado que reconfigura a cidade, e as cores e texturas impressionam na cópia em 35mm que será exibida em nossas sessões. A cidade, agora se tratando da capital francesa, também é o fio condutor em Paris no Verão, do mestre Jacques Rivette. O filme flutua entre as festas que pontuam a Paris dos anos 90, conforme suas três protagonistas navegam estilos de vida profundamente diferentes mas curiosamente conectados. A vida noturna aproxima essas mulheres, servindo como lugar de encontro e integrando o cotidiano de suas relações com a cidade, de maneira fluida e delicada.


Se as festas são capazes, então, de definir culturalmente suas cidades, isso as torna importantes objetos históricos, retratos antropológicos da maneira como as relações sociais se caracterizam em diferentes épocas. O baile de máscaras em Madame Satã, filme de 1930 do diretor Cecil B. DeMille, serve como exemplo dessa possível leitura – os figurinos, a rigidez de suas dinâmicas e a própria localização do evento, em um zepelim suspenso no ar, são diferentes figurações do tipo de festa que era possível nos Estados Unidos daqueles tempos. É o mesmo resultado dos biquinis neon e dos funis de cerveja de Spring Breakers, de Harmony Korine, que em 2012 também impressionou ao encapsular perfeitamente o início dos anos 2010, nesse filme controverso, bagunçado e fascinante. Enterradas sob camadas de ironia e glamourização, as ideias de “Spring Breakers” também pretendem esmiuçar o que define uma época a partir de sua juventude e do que é transgressivo e divertido para ela.

 

Durante todo o mês de fevereiro, a festa não para aqui no CINUSP. Convidamos vocês para assistir e curtir esse panorama de filmes, que exploram as tantas maneiras de se festejar e de retratar suas motivações e transformações.

 

Boas sessões!