NOVÍSSIMO CINEMA BRASILEIRO

Neste ano o CINUSP retorna com sua tradicional mostra “Novíssimo Cinema Brasileiro” em sua 14ª edição. Mantendo-se fiel à sua proposta inicial de apresentar ao público as mais recentes produções do cinema nacional, serão exibidas 19 programações que representam, cada uma à sua maneira, diferentes gêneros, localidades e formas de produzir cinema no Brasil. Para além das exibições, ao longo da mostra realizaremos debates com realizadores e equipes.
Não há dúvidas de que O Agente Secreto foi um dos nomes mais comentados do ano, resultado das suas quatro indicações ao Oscar. Na trama acompanhamos Marcelo que, durante a ditadura militar, foge de São Paulo para Recife em busca de segurança. O longa carrega em si fragmentos do amor do diretor Kleber Mendonça Filho pelo cinema e por Recife, cidade mal-assombrada e com grandes lendas urbanas, como é o caso da icônica Perna Cabeluda, apresentada no filme. Outro filme que também possui uma lenda, desta vez rural, é Bicho Monstro, de Germano de Oliveira. Ambientado na Serra Gaúcha, em uma cidade colonizada por imigrantes alemães, o filme se passa em diferentes tempos que estão ligados pela figura de Thiltapes, uma criatura inventada pelos próprios imigrantes para pregar peças em crianças desobedientes. O longa inova ao também tratar da presença indígena no Sul do Brasil, para além da já conhecida imigração alemã, cujas práticas culturais se mantêm preservadas até os dias atuais.
Já do outro lado do Brasil, em Manaus, Retrato de um Certo Oriente emociona ao tratar da imigração libanesa para o país. Na trama, acompanhamos o casal de irmãos católicos Emilie e Emir durante sua vinda para o Brasil. Emilie acaba se apaixonando por Omar, um muçulmano, o que desperta a fúria de seu irmão. O filme é uma adaptação literária de “Relato de um Certo Oriente”, primeiro romance de Milton Hatoum, e tem a ordem cronológica dos fatos alterada de forma inovadora em relação ao livro, caracterizando uma forma de adaptação literária diferente das feitas usualmente. Outro importante escritor da literatura brasileira é Jorge Amado, que tem sua amizade com Dorival Caymmi e Carybé examinadas em 3 Obás de Xangô, de Sérgio Machado. No documentário, para além de vermos a relação entre os três ícones, também entendemos como a consolidação das carreiras dos artistas serviu para que se criasse um imaginário positivo a respeito da cultura baiana, que contribui para a formação da autoestima dos que lá crescem e podem contar com referenciais culturais próprios.
Para além dos tradicionais lançamentos, esta edição da Novíssimo também abarca uma outra tendência recente do cinema brasileiro: as restaurações de clássicos e seus posteriores relançamentos em salas de cinema. Como fruto da parceria com a Vitrine Filmes exibiremos a restauração 4K de São Paulo Sociedade Anônima, de Luiz Sérgio Person. Obra monumental do cinema paulistano, o filme de Person retrata uma angústia das metrópoles através de Carlos, um trabalhador industrial que não encontra sentido para a sua vida. No dia 09/04 a sessão será seguida por uma masterclass sobre restauração no cinema com a cineasta Marina Person. Fundada em 2020, a Cinelimite é uma organização que trabalha com a restauração de filmes brasileiros pouco conhecidos. Sua mais nova mostra, Cinema Marginal Piauiense, foca na produção de curtas e médias do estado por jovens artistas com inspirações de movimentos como a Tropicália e o cinema marginal sudestino. Em 10/04, às 19 horas, haverá uma sessão especial do programa em parceria com a Cinelimite.
Rodrigo Lima convidou o veterano do cinema brasileiro Júlio Bressane para juntos utilizarem fragmentos de filmagens feitas no Brasil entre 1898 e 2022 para montar um novo filme: Relâmpagos de Críticas, Murmúrios de Metafísicas. Há uma preocupação da dupla em criar uma história alternativa do cinema brasileiro e de falar da deterioração que o acompanha. Por falar no história do cinema, em 2025 nos despedimos do crítico e realizador Jean Claude Bernardet, aos 88 anos. Como homenagem às suas contribuições ao cinema brasileiro realizaremos uma sessão especial que contará com as exibições do inédito Bressane: A Escrita em Cena e de São Paulo: Sinfonia e Cacofonia.
Muito longe de São Paulo está Dora, protagonista de Suçuarana, de Clarissa Campolina e Sérgio Borges. No longa, a personagem vaga pelas estradas brasileiras por mais de 10 anos em busca de uma terra prometida, o Vale do Suçuarana, onde acredita que sua mãe nasceu. Nas suas caminhadas prevalece um incômodo ruidoso, que encontra correspondência nas paisagens devastadas pela mineração em Minas Gerais. Ainda em um Brasil profundo, longe da eletricidade e dos grandes centros urbanos, Érico Rassi ambienta seu Oeste Outra Vez. Com um forte comentário sobre uma masculinidade sufocada dentro da própria violência, o longa apresenta dois homens, Durval e Totó, que na disputa pela companhia de uma mulher empregam atos de violência um contra o outro.
Outros filmes que também trazem comentários sobre gênero e masculinidade são Ato Noturno e A Natureza das Coisas Invisíveis. O primeiro, um thriller homoerótico que se passa na capital gaúcha, trata de um desejo que se esconde, mas quer ser visto. Nele acompanhamos a relação entre um ator ambicioso e um político em ascensão que partilham de um interesse por fazer sexo em locais públicos da cidade, ao mesmo tempo em que o político precisa esconder seu desejo por homens para que possa alavancar sua carreira. Já o segundo, a partir do encontro entre duas meninas em um hospital, trata da transgeneridade na infância de forma delicada. Também lida com a morte: o processo de despedida de um corpo e o que fica para trás quando as pessoas amadas vão embora, às vezes para sempre. Outro filme com personagens pueris é O Último Episódio, de Maurílio Martins. O longa do fundador da produtora independente Filmes de Plástico se passa na cidade de Contagem, em 1991, onde o jovem Erik, movido por uma paixonite, se junta a seus amigos para recriar o mítico episódio final da animação “Caverna do Dragão”. Esse processo passa pelos filmes caseiros e a presença das novidades tecnológicas que chegavam em regiões periféricas. Paralelamente a esse desenvolvimento da tecnologia, há uma fugacidade típica da pré-adolescência, onde não sabemos ao certo se somos crianças ou adultos.
Através do cinema é possível denunciar injustiças e criar filmes políticos a partir das mais diversas abordagens e gêneros. Hora do Recreio, da cineasta, militante e ex-guerrilheira do período militar Lúcia Murat é a prova disso. Híbrido de ficção e documentário, a obra abre espaço para que crianças e adolescentes da rede pública de educação do Rio de Janeiro possam contar suas próprias histórias. Oscilando entre colheita de relatos e encenações organizadas pelos próprios adolescentes, o filme consegue ser corajoso e delicado ao mesmo tempo. Com uma sessão única na abertura da mostra, a sessão do filme em 30/03 será acompanhada por um debate com a diretora. Essa fina barreira entre ficção e documentário também é tensionada em Na Passagem do Trópico, de Francisco Miguez. Um ator interpretando um topógrafo anda por Ubatuba, recolhendo relatos de pessoas que vivem, por falta de opções melhores, em regiões com risco de deslizamento. Há uma preocupação interessante pela forma, onde o cineasta sobrepõe imagens de arquivo da região pré-ocupada com imagens de como a mesma se encontra atualmente. Há ainda a opção de tratar de um problema político e social através da distopia, como é o caso de O Último Azul, de Gabriel Mascaro. Ovacionado na Berlinale por sua pertinência, o longa conquistou o Urso de Prata na mesma edição. Com elementos do realismo mágico, a trama se passa num Brasil distópico, onde figura um sistema de internação compulsória para pessoas com mais de 80 anos. No interior do Amazonas vive Teca, uma senhora de 77 anos, que é surpreendida ao descobrir que se tornou alvo da operação. Com isso, decide fugir em busca de um lugar onde possa existir com paz e acaba encontrando Roberta, uma idosa que vive em um navio. No dia 15/04 às 19 horas haverá debate com Denise Weimberg, atriz que interpreta Teca.
Também à deriva está Miguel, protagonista de Amante Difícil, de João Pedro Faro. No filme Miguel se perde pela cidade, e no caminho encontra um críptico que lhe entrega um mapa do centro do Rio. Ao caminhar pelas ruas durante aquela madrugada, produz uma cartografia simbólica dos mistérios dos perigos noturnos. Na madrugada de uma outra capital, desta vez a paulistana, se passa As Florestas da Noite, de Priscyla Bettim e Renato Coelho. Com uma dramaturgia marcada por monólogos e uma fotografia granulada com contrastes brilhantes e brancos estourados, a trama ganha vida através da noite e suas personagens marginalizadas. No dia 16/04 às 19 horas haverá um debate com a dupla de realizadores e a atriz Helena Helena Albergaria.
Contemplando o cinema experimental brasileiro contemporâneo, exibiremos Tannhäuser, de Vinícius Romero. O sétimo longa de Romero usa de uma linguagem experimental para narrar histórias subterrâneas às imagens. Dividido em sete capítulos, inspira-se na ópera homônima de Wagner apenas no que se refere às emoções que a mesma suscita e encanta pela beleza de suas imagens e efeitos como o vazamento de luz na película.
Do Norte ao Sul, passeando pelos mais variados gêneros e formas de produção cinematográficas, convidamos o público a apreciar as produções mais recentes do nosso cinema, que estarão contempladas em toda a nossa programação.
Boas sessões!