EM CARTAZ

CORRESPONDÊNCIAS


São Paulo, 11 de Maio de 2026.

Querida C,

Que saudades de você! Sei que estive meio sumido, e por isso peço mil desculpas, mas a vida corre tão rápido quando percebi, já fazia semanas desde que nos falamos pela última vez. Acho que você me entende, e pode se compadecer: de qualquer forma, te escrevo agora. Queria te dizer que o CINUSP está de volta, e as Correspondências vão ser o destaque dessa nova próxima mostra. Filmes sobre cartas, contados por cartas, estruturados como uma carta, esse tipo de coisa. É uma ideia bonita, não? Uma carta pode ser tanta coisa, significar tanto, materializar algo que poderia ser um sussurro no ouvido, mas se torna tinta no papel. E também é recurso literário, estilístico, pode ser sobre o segredo e o anonimato, sobre a palavra e o relato. É fascinante o que o cinema faz com esse ponto de partida… eu tenho certeza de que você vai gostar.

Bom, pra começar, vai ter filme do Lubitsch: A Loja da Esquina é daqueles que merece destaque em qualquer seleção em que ele estiver. Um amor improvável, entre dois colegas de trabalho que não se dão tão bem assim, mas que quando escrevem cartas anônimas, deixam se levar pelo puro sentimentalismo… É um clássico, não tem o que fazer, cômico, romântico e inteligente, como não se faz mais hoje em dia. Aliás, não daria pra fazer uma mostra assim sem uma boa dose de filmes dos anos 40, quando a carta ainda estava bombando, por assim dizer. E tem filme bom de sobra pra escolher: Carta de uma Desconhecida, do Max Ophüls, faz aquele tipo arrebatador, com uma história trágica, uma Joan Fontaine inacreditável e uma estrutura muito, mas muito cativante. É muito especial entender aos poucos a história desses dois. Depois da primeira sessão, no dia 19, ainda vai rolar um debate com os pesquisadores Marcos Antonio de Moraes e Giovani Kurz, do Instituto de Estudos Brasileiros aqui da USP, pra falar sobre a relação do cinema com a literatura epistolar (essa que desenvolve a história através das correspondências).

Ainda nos anos 40, mas do outro lado do Atlântico, tem o Le Corbeau do Henri-Georges Clouzot. Esse foi censurado, retirado dos cinemas, fez o diretor ser perseguido… Desagradou todos os lados, o governo e a oposição. Ele conta a história de uma pequena cidade francesa que começa a ser aterrorizada por cartas assinadas por um tal de “Corvo”, que expõe as mentiras, os segredos e as hipocrisias de seus moradores. A investigação é um caos, até porque todos estão envolvidos: tem muitos plot twists, uma mise-en-scène insana e não tem como não ficar paranoico conforme o caldo engrossa. É cinemão.

Escrever para alguém que você ama é uma coisa tão forte, não? Colocar em palavras o que parece ser intraduzível, inexplicável. Mesmo que, por algum motivo, esse texto acabe não sendo lido pela outra pessoa, escrever é o que parece realmente importar. No Carta de Amor do Shunji Iwai, uma carta enviada “em vão”, para o marido falecido de sua remetente, se torna o início de uma história inesperada e sensível quando a personagem recebe uma resposta. As Pontes de Madison do Clint Eastwood, uma das mais lindas histórias de amor não resolvido no cinema, também se estrutura pelas cartas, usando do recurso do flashback para adaptar um livro com elementos epistolares. Não tem como terminar de ver esse filme sem ao menos marejar os olhos; tem tantos pequenos detalhes, brilhantes luzes no mundano de uma relação, que mesmo se você já tiver assistido, te garanto que ainda vai ter alguma coisa nova pra perceber (e provavelmente vai ser algum gesto ou olhar da Meryl).

O Mensageiro, do Joseph Losey, também fala das cartas de amor, mas de um jeito diferente. O filme é sobre um menino que acaba servindo de entregador das cartas entre uma aristocrata e um fazendeiro da região. O garoto é apaixonado pela rica mulher, e toda a narrativa gira ao redor desse sutil triângulo amoroso, mediado pela correspondência. A direção meticulosa do Losey brilha no enquadramento de seus personagens, sempre com o peso da diferença de classes que divide os amantes, tornando seu amor tão improvável quanto o dos sonhos do garoto que se tornou um carteiro por acidente. É em tempos divertido, pelo seu roteiro consciente das incoerências das classes mais altas, mas também implacavelmente trágico.

Ah, vamos exibir o Uma Noite Sem Saber Nada, da Payal Kapadia. É um documentário incrível sobre uma greve de estudantes da faculdade de cinema na Índia, lançado em 2021; que coincidência com os nossos assuntos por aqui, né? Se bem que essa luta é tão constante, tão presente, que estranho é quando isso não aparece. A juventude sonhadora, em busca dos seus direitos, do mundo que a foi prometido. A Kapadia enquadra a história a partir de cartas encontradas no armário de uma das alunas, que vivia um romance proibido, entre castas, em meio à turbulência política e social. É uma pérola. Que nem o Forbidden Letters, do Arthur J. Bressan, Jr. Esse conta a história de um casal gay, em São Francisco nos anos 70. Um deles está preso, e o outro o espera do lado de fora; pelas cartas que ele nunca enviou, mas lê e relê em seu quarto, entendemos a origem, as texturas e o desejo desse romance. É um filme adulto, que borra as fronteiras entre o erótico e o cinematográfico de um jeito tão elegante que não dá pra acreditar que o diretor não seja mais reconhecido por seu trabalho inclusive como montador. Cada corte é tão lindo, sensível, transitando entre o espaço do sonho, da memória, do real. Esse é imperdível também.

Uma programação bem curiosa é, claro, o Central do Brasil do Walter Salles. Exibi-lo numa mostra sobre correspondências ilumina uma de suas facetas mais interessantes: a da profissão da personagem de Fernanda Montenegro, e da maneira como essas cartas vão ganhando novos tons, até o momento em que ela mesma precisa lidar com a distância e a saudade. Essa cópia está linda demais, é a restauração. E vai ter debate com o Vinícius de Oliveira, o ator do Josué, no dia 14! A animação Mary and Max também trata de uma amizade inusitada, que nem a de Dora e Josué. No filme do Adam Elliot, uma menina australiana de oito anos começa a se corresponder com Max, uma alma solitária em Nova York, e os dois descobrem coisas novas sobre si mesmos e sobre a vida. A técnica do “claymation”, que é o stop-motion com massinha de modelar, dá uma cara inconfundível para os personagens e seus cenários. É melancólico, mas cheio de coração.

O e-mail foi o jeito moderno de manter viva a tradição das cartas, pra nossa geração que aprendeu a fazer tudo pelo computador. Ter passado horas por dia se correspondendo com amizades virtuais é uma experiência mais comum do que a gente imagina. No Haru, do Yoshimitsu Morita, os dois personagens se conhecem num fórum online sobre cinema; conforme começam a trocar mensagens privadas, eles formam uma conexão, se apaixonando pelas palavras um do outro. Grande parte do filme é composta, justamente, das cartelas com o texto desses e-mails, entrecortando as cenas cotidianas das vidas de cada um. Mesmo no mundo digital, ainda há uma força na palavra escrita (ou, digitada) que pode romper as barreiras dos sentimentos inexplorados e da distância física entre dois estranhos.

Exibir As Vantagens de Ser Invisível é outro caminho para pensar o filme “epistolar”. Ele foi adaptado de um romance pelo seu próprio autor, o Stephen Chbosky, que escreveu a história de Charlie por meio das cartas que o personagem enviava para alguém desconhecido, um amigo de um amigo. Esse elemento da forma literária se transpõe para o filme como um enquadramento, uma linha que guia a apresentação dos personagens e como entendemos as histórias, com esse narrador-personagem na frente da máquina de escrever. É uma adaptação bem mais preocupada com a narrativa convencional do que o Aurélia Steiner da Marguerite Duras, certamente. Esse díptico da diretora e autora francesa também pega o texto escrito, epistolar, e faz cinema mas do jeito dela, com imagens desconectadas, em primeiro olhar, do texto que ela lê em off. E que texto… Essa narração é trabalhada com tanta naturalidade que quase não se percebe a quantidade de vozes, assuntos e identidades que se reúnem nas palavras da poeta fictícia que assina as cartas. O filme vai ser exibido junto do curta Uma Carta para o Tio Boonmee, do Apichatpong Weerasethakul, que conversa bastante com essa mistura entre intimidade e política do trabalho da Duras.

O Godard também fez bastante cinema a partir da palavra, da escrita, da ideia de um filme endereçado a alguém eram tantas opções, que acabamos organizando a Sessão Cartas de Godard. São quatro filmes, dando ali quase uma hora e meia, traçando um panorama das maneiras que o cineasta realizou esses filmes-carta, seja refletindo sobre a capacidade discursiva das imagens, lidando com “encomendas” cinematográficas que recebeu e não quis cumprir, e até respondendo, por meio de um filme, ao diretor do Festival de Cannes para explicar sua ausência em um debate. Vale a pena assistir a essa coleção de filmes inusitados.

Misturando várias dessas abordagens do lidar com a correspondência, mas também fazendo algo inteiramente único, o Chris Marker dirigiu o monumental Sans Soleil. É um documentário que viaja pelo globo refletindo sobre a natureza da memória humana misturando suas cenas com trechos de outros filmes e imagens de arquivo, tudo sob a narração das cartas de um fictício operador de câmera. É diferente de qualquer coisa que você já viu — espiralado, maluco, maior que a vida. Numa escala muito mais íntima, mas com a mesma missão de reunir diversas histórias e contemplações, está o Carta de um Cineasta para sua Filha, do Eric Pauwels. Cobrado por sua filha pequena de algum filme que fosse “para ela”, o diretor reúne uma série de imagens, músicas e narrações numa montagem afetiva e delicada, resultando em uma obra que transborda carinho e doçura. Ao fazer um filme para uma pessoa específica, o efeito acaba também sendo o reverso, tocando em ideias e sentimentos universais.

Por fim, a mostra vai ter toda uma semana com programação especial: do dia 25 ao dia 29, às 20h30 teremos sessões do projeto Correspondências Cinematográficas, encomendado pelo Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, o CCCB. Cada dia vai ter os filmes de uma dupla de diretores, um falante de espanhol, o outro não, em comunicação um com o outro, colocando na prática a ideia de um filme endereçado, que tem uma resposta, e então outra, travando um diálogo cinematográfico. O resultado é singular, com alguns grandes diretores (Kiarostami, Mekas, Kawase… só pra dizer alguns) apresentando facetas únicas e íntimas de seu trabalho, sua relação com o cinema e com a vida.

Bom, já devo estar me estendendo demais. É que, você sabe, falar de cinema com você é sempre emocionante. Você faz falta, e todo filme que a gente decide exibir é na vontade que você apareça. Por isso, espero que goste bastante dessa seleção. No fim, pensar por carta é uma maneira muito bela de se pensar. É pensar no outro, no par, na pessoa que está lendo. Ou, então, assistindo ao filme.

Um apertado abraço,

CINUSP

P.S. Boas sessões!