EM CARTAZ

CAÇA AO TESOURO


Onde se esconde um tesouro? Um artefato lendário, uma cidade perdida, e até mesmo a riqueza de uma figura mítica vencida pela própria ganância. A constante dos tesouros escondidos é o movimento de buscá-los, de pegar mapas velhos, deteriorados, e tentar se guiar pelas poucas informações neles registradas. Assim os aventureiros partem para enfrentar desafios, viagens e apuros jamais vistos, tudo para colocar as mãos em preciosidades de valor extraordinário.

Em julho, iremos nos debruçar nas diversas maneiras e gêneros cinematográficos que envolvem essa busca. O CINUSP então te convida, entre os dias 30/07 a 19/07, para uma Caça ao Tesouro, que através de 14 filmes, viajam rumo ao horizonte com uma obsessão em mente. 

O primeiro tracejado em nosso mapa nos leva a Z: A Cidade Perdida, onde o explorador Percy Fawcett decide provar a existência de uma civilização avançada na região do Mato Grosso. A busca entre a natureza, inexplorada para a visão eurocêntrica, é um palco de perdição mental. A cada avanço dentro da lenda, sua vida desmorona, até que ele se torna um vulto em meio às árvores. O cinema de James Gray consegue dar a escala grandiosa para esse tipo de busca, mesmo em uma produção de orçamento limitado.

Outro aventureiro que acaba em território brasileiro é o vivido por Jean-Paul Belmondo em O Homem do Rio, livremente inspirado em álbuns de Tintim como “O Ídolo Roubado e A Orelha Quebrada". No filme, o soldado vem ao Brasil à procura de uma relíquia da civilização Malteca. O sentimento esbaforido e uma lógica de ação,que prioriza o desencontro cômico das situações, fazem com que ele esteja sempre em movimento, destacando a variedade de locais que percorre: saindo do cartão-postal Rio de Janeiro, aos canteiros da Brasília, ainda em construção, e chegando até as florestas tropicais da Amazônia. 

Ao olharmos nosso mapa, paramos em uma adaptação mais direta do repórter astuto. Em As Aventuras de Tintim, encabeçado por Steven Spielberg e todo o aparato da Weta Digital, essa versão escolhe um caminho peculiar: enquanto animação, mantém o aspecto cartunesco dos álbuns originais, e sua captura de movimento abraça um detalhismo que enriquece cada segmento de fuga e confusão vividos por Tintim e Haddock. Os ventos nos guiam e levam para o primeiro filme de Hayao Miyazaki. Antes de fundar o estúdio Ghibli, Miyazaki trabalhou na TV com o personagem Lupin III, e essa experiência o levou a dirigir o primeiro filme do personagem, Lupin III: O Castelo de Cagliostro. O fato de Lupin ser abertamente um ladrão transforma sua busca por riquezas mais em uma contravenção, já enquanto sua moral e charme o transformam num eventual herói, diante da causa certa.

O aspecto empoeirado de nosso mapa remete de alguma maneira a desertos, e nos coloca debaixo de sol no México, onde três operários em condições precárias partem em busca de ouro nas montanhas. Em O Tesouro de Sierra Madre, western do consagrado John Huston, vemos uma representação nada aventuresca de uma busca por riquezas; a poeira do deserto suja quem se atreve a buscar ouro, e eles são rodeados por paranoias motivadas pela ganância da possível fortuna. As personagens  assentadas em um metal precioso que parece farelo, faz com que o  filme nos traga a dúvida: o ouro corrompe a alma ou atrai aqueles de alma corrompida?

E quando o tesouro é capaz de recuperar a alma dos homens? Atracamos na maré da região costeira de Moonfleet, onde o jovem John chega a um povoado e se deslumbra com a história do diamante perdido do barba ruiva, fazendo com que ele parta em busca da joia junto de seu tutor. Inspirada numa obra literária homônima, o filme de Fritz Lang aposta no clima soturno e litorâneo para contar como a inocência de uma criança se comporta no centro de intrigas palacianas. O tutor consolida um laço com o garoto, e questiona sua própria moralidade a cada ingênua interação com o jovem John.  Adaptado de outro clássico literário, dessa vez a Ilha de Tesouro de Robert Louis Stevenson se apresenta como Planeta do Tesouro, que coloca a clássica narrativa de pirataria do século XVIII num cenário futurista, com robôs, navios-naves espaciais e piratas que, ao invés de uma perna de pau, possuem pernas robóticas. O filme ficou infame no cânone da Disney, seu fracasso se tornando um marco histórico e uma guinada da empresa em priorizar animações 3D em detrimento das animações tradicionais em 2D.

No mapa, as correntes marítimas são elementos essenciais a serem representadas, evitando o naufrágio de embarcações como a de Jasão e os Argonautas. O filme retrata a jornada de Jasão, que, após seu pai ser destronado, parte em busca do velocino de ouro para recuperar o trono que é seu por direito. A viagem é atravessada por desafios fantásticos e intervenções divinas que ora auxiliam, ora dificultam seus objetivos. Do mesmo modo que, no mundo mitológico grego, o fantástico dos deuses constantemente interfere no mundo dos homens, no longa os efeitos do lendário Ray Harryhausen animam através de stop-motion as criaturas e obstáculos, aproximando o fantástico dos atores. A sessão do dia 06/07 às 19h será seguida de debate com Adriane Duarte, professora do departamento de Letras Clássicas da FFLCH/USP.

E quando uma parte do nosso mapa está faltando? Talvez rasgada e deteriorada pelo tempo, causando desorientação tamanha que deixa o momento perfeito para Um Passeio por Paris, onde duas mulheres se encontram por acaso e vagam pela cidade à procura de algo que nem elas sabem o que é. Jacques Rivette faz da confusão sua estrutura; suas duas caçadoras parecem viver em filmes distintos, caçando coisas separadas sem saber qual será o resultado de sua busca. O que nos resta é vagar junto delas, usando um mapa que mais se assemelha a um jogo de tabuleiro e enfrentando dragões de uma maneira diferente da que se esperaria.

Também interessados pelo aleatório, a trupe de comédia britânica Monty Python dessa vez está em Busca do Cálice Sagrado. O fio que define o humor do grupo é o “nonsense”, somado a diversos momentos que os personagens reconhecem a própria existência em um filme, junto de uma acidez a história desmonta a busca pelo artefato mítico. O sacro é transformado em heresia, tirando toda roupagem séria e solene da cavalaria do Rei Arthur. 

Com uma bússola desmagnetizada podemos, por acaso, retornar à ponta inicial, e nesse caso o mais antigo ponto na nossa jornada de filmes. O Tesouro Perdido, de 1927, carrega um caráter mítico, mas não em sua narrativa, e sim através da sua própria condição material. Com a sua única cópia sobrevivente profundamente deteriorada, a maneira como o observamos se torna singular. Procuramos, em meio até das cartelas pouco visíveis, o tal tesouro, tanto narrativamente, quanto ao observar a própria existência única da obra como uma preciosidade. O filme será exibido em sessão especial no dia 16/07, às 20h30. 

Às vezes, a fuga nos motiva a continuar explorando. Em Kumiko: A Caçadora de Tesouros, acompanhamos Kumiko, que, após acreditar que o filme “Fargo” se trata de uma história real, parte para os Estados Unidos em busca do tesouro do filme. A jornada é uma maneira de escapar das suas condições: o escape que era antes pelas telas agora se materializa no movimento de viajar do Japão até Minnesota. Os desafios de Kumiko são muito próximos aos nossos: viajar, se rebelar contra família e trabalho e se comunicar em outro idioma, deixando toda a busca mais palpável e angustiante.

Imaginar ter um tesouro em mãos nos causa dúvidas sobre o valor que ele tem para cada um. Em Paddington 2, o pequeno urso adaptado da literatura infantil britânica busca um livro especial para sua tia, que também é cobiçado por um engenhoso ladrão. Esse tesouro de caráter híbrido questiona a ideia de valor: há mais nas memórias com alguém especial, ou no mapa que leva a riquezas inimagináveis? Outra fonte de adaptação literária infantil famosa é todo o universo da Turma da Mônica criado por Mauricio de Sousa. Em Turma da Mônica: Uma Aventura no Tempo, diferente dos outros filmes citados em nosso caminho, a aventura rompe barreiras geográficas e se estende por uma linha temporal. A  estratégia do filme em isolar cada membro do quarteto original em um espaço da cronologia valoriza suas piadas particulares. Cada tempo garante também uma interação com outros personagens das historinhas, como Piteco, Papa-Capim e Astronauta. Com destaques para programações infanto-juvenil em nosso desenho de exibições, nessa mostra teremos o encaixe de sessões dubladas de alguns filmes em nossa grade.

Nessa mostra consideramos cada filme como uma recompensa imaterial, e convidamos a ver como a jornada de encontrar um filme se assemelha com o maravilhamento de se achar um tesouro. Ao fim desse mapa cinematográfico o X continua a marcar o local de destino: a sala de cinema, o CINUSP.