EM CARTAZ

MUNDOS DE PLÁSTICO


O cinema é simulacro, artificial. Por mais que pareça mais verdadeira que a vida real, a imagem na tela é composta por apenas 24 fotos que aparecem a cada segundo e iludem as pessoas que olham a acreditar que existe algo de verdadeiro ali. A questão é que geralmente o cinema filma coisas do mundo real, filma pessoas simulando emoções verdadeiras, grava sons que combinam com o que vemos, filma árvores, prédios, casas, carros. 

Mas o que pode sair quando a imagem não busca simular o mundo real? O que você, espectador tão habituado com imagens realistas, sente quando vê na tela uma árvore que não parece real? Um carro de mentira numa pista de corrida que não poderia existir dentro das leis da física sob as quais vivemos, um salão de um palácio onde as vigas simulam diversos pênis eretos apontados para o céu, um vilarejo onde as paredes são apenas listras de giz pintadas no chão. Entre 08/06 e 28/06 o Cinusp examina os Mundos de Plástico do cinema, com 16 filmes (e 16 videoclipes, logo falaremos sobre isso) que abraçam a artificialidade em sua criação de mundo. 

É fato que o cinema sempre deu espaço para a fantasia em suas telas, mas não é ela que nos interessa aqui. Nossa busca é por filmes que pautam a área cinzenta entre a crueza do mundo real e uma artificialidade visual que adiciona um tempero de incomum, um vale da estranheza estreito mas profundamente interessante. Um espécime que serve bem como exemplo é Lisztomania. Dirigido por Ken Russell, o filme é uma biografia (mais para uma fabulação biográfica) do compositor Franz Liszt. A vida boêmia do musicista é apresentada em pequenos episódios surreais, com cenários exagerados e malucos (o supracitado salão com vigas em formatos de pênis, por exemplo) e anacronismos escancarados. A realidade está ali, mas ela é pautada de forma tão estranha e os lugares parecem tão impossíveis de existir e as atuações são tão irreais e a câmera se interessa tanto por toda essa artificialidade que o mundo em tela parece feito de plástico. 

O uso do cenário como um espaço não de realismo, mas de expressão e experimentação no cinema é recorrente, Da Manhã à Meia-nfoite é um representante desse fato. Um dos filmes radicais do Expressionismo Alemão, a obra dirigida por Karlheinz Martin parte de uma premissa sobre desvio de dinheiro por parte de um banqueiro para radicalizar na inventividade com cenários e efeitos de câmera. A experimentação não caiu bem para a indústria de cinema alemã da década de 20 e o filme se perdeu, com uma cópia sendo encontrada anos depois e aí sim revelada para o mundo. Se o filme alemão apoia-se no expressionismo, o tcheco O Dirigível Roubado inspira-se em Art Noveau. O filme de Karel Zeman mescla diferentes histórias de Júlio Verne e constrói-se através de recortes de jornal numa estética artificial muito própria do diretor que veio a inspirar profundamente Terry Gilliam, a trama narra as desventuras de um grupo de meninos que sequestram um dirigível.

Em O Sanatório de Clepsidra, um homem visita o pai num sanatório decadente. De cômodo em cômodo do lugar, memórias e imaginações surgem, fazendo o homem revisitar sua relação com a infância, com a família e com diversas questões não resolvidas do seu passado. Tudo aqui é plenamente esquisito, cada ambiente levanta-se cuidadosamente construído para soar como uma memória disforme e caótica e a caminhada do nosso protagonista conecta ambientes que não parecem possíveis de serem conectados: o homem se arrasta para baixo de uma cama e sai numa floresta, um porão revela-se um enorme mercado, etc. Em Dogville, dirigido por Lars Von Trier, a proposta é oposta: não há paredes, não há limitações entre cenários, os espaços são puramente imaginados pelo espectador mas estão ali em definitivo para as personagens, que agem como se aquele mundo fosse totalmente normal. O filme conta a história de uma mulher em fuga que passa a ser explorada pelo povo de um vilarejo.

A Balada de Narayama encontra outra forma de mostrar a relação de um povo num vilarejo pequeno. Aqui somos apresentados a uma realidade curiosa: a miséria de um povoado gerou uma regra implícita de que idosos, ao atingirem os 70 anos de idade, devem ser levados ao topo de uma montanha para morrer sem onerar os mais jovens. O filme remonta ao teatro Kabuki e é todo encenado em estúdio, com pinturas servindo como fundos de cenários e paredes movendo-se para servir como transição entre cenas. 

O Fundo do Coração de Francis Ford Coppola também é uma obra de estúdio. Depois da gravação caótica de Apocalypse Now, Coppola queria dirigir algo que lhe garantisse mais controle. O resultado é um filme de romance onde o diretor recriou Las Vegas inteira dentro do estúdio através de pinturas, réplicas e miniaturas para contar a história de um casal que tenta recomeçar suas respectivas vidas amorosas depois de um término traumático. A Pequena Vendedora de Fósforos é nome certo quando se trata de filmes gravados inteiramente em ambientes fechados. A obra de 1928 dirigida por Jean Renoir foi filmada no sótão de um teatro e tem uma estética muito particular, as paredes dos lugares parecem feitas de papelão enquanto o drama da protagonista soa mais real do que a vida.

Pepperminta dirigido pela artista visual Pipilotti Rist explora a artificialidade possível também nos ambientes externos, brincando muito mais com efeitos gráficos e com lentes que distorcem a imagem para contar a história de uma jovem que busca por um universo mais liberto e colorido. O filme contará com um debate com a professora e artista visual Dora Longo Bahia em sessão que ocorre no dia 16/06 às 19h. 

E por falar em cores é impossível não mencionar Speed Racer. O filme dirigido pelas icônicas irmãs Wachowskis é uma ode às cores, à inventividade e ao potencial do cinema como espaço de fabulação e experimentação visual. Contando a história de um piloto de corrida lutando contra a corrupção no mundo do automobilismo, as diretoras decidiram pirar com cenários digitais ultra coloridos e com telas lotadas de informação, um ritmo incessante e um filme que, embora tenha sido mal compreendido em seu lançamento, é apaixonante. 

Outra obra profundamente mal compreendida pela crítica em seu lançamento é Johnny Guitar, de Nicholas Ray. Filmado com uma tecnologia de fotografia chamada Trucolor que deixava as cores mais vivas e também utilizando telas e cenários criados em estúdios para gravar algumas cenas, o faroeste ganhou uma estética muito particular, destacando os atores no cenário e contando com delicadeza ímpar a história de uma dona de saloon prestes a vender seu bar para que uma estrada de ferro seja construída onde ele se encontra. 

Ao falar sobre um cinema inventivo e que abrace a artificialidade como aliada é necessário falar de Nobuhiko Obayashi. O diretor japonês sempre foi um especialista em usar os mundos de plástico a favor de suas histórias e em Hanagatami, uma obra que conta a história da sombra da guerra sobre um grupo de adolescentes, ele já tinha bastante experiência em trabalhar com o que há de artificial nas potencialidades do cinema. O filme é uma mistura muito interessante entre o visual clássico dos filmes do diretor, sempre atrelado a colagens visuais e muitas cores, com algo de um estilo tardio de Obayashi, tendo em vista que o filme foi lançado em 2017 e o diretor japonês faleceu em 2020.

Em terras brasileiras, a artificialidade fica a cargo de Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme. O diretor Cao Hamburguer já tinha muita experiência com aquele universo em específico, uma vez que dirigiu a série de TV, mas decidiu inovar no longa, focando muito mais na narrativa do que no conteúdo educacional tão típico da série de TV. O castelo mais famoso e querido do Brasil construiu uma realidade própria e uma estética artificial tão assimilada pelo público brasileiro que é quase surpreendente chamá-la de artificial, mas é fato que o cenário construído tanto na série de TV quanto no longa apela para saídas visuais interessantes e inventivas, com o longa trazendo uma estética um pouco mais sombria. Teremos a chance de conversar sobre o estilo de Castelo Rá-Tim-Bum , o Filme com a diretora de arte do filme (e também da série) Vera Hamburguer, em debate no dia 10/06.

Shin Kamen Rider também é um longa presente na mostra que bebe da fonte da televisão. Kamen Rider é uma franquia de televisão japonesa na chave dos chamados Tokusatsus, termo japonês usado para descrever obras com muitos efeitos especiais. O termo é bastante adequado para o filme de Hideaki Anno, um dos nomes em destaque no cinema contemporâneo quando se trata de obras que brincam com a artificialidade e com os vales da estranheza possíveis. A história de um guerreiro ciborgue híbrido de gafanhoto capricha nos figurinos malucos e nas cenas de ação ultra estilizadas sempre em contraste com um mundo plenamente realista e muitas vezes cinza. Esse choque impressiona e explica um pouco do sucesso do diretor entre os fãs de tokusatsus e animes.

Nowhere fecha a Trilogia do Apocalipse Adolescente dirigida por Gregg Araki. Apresentando o marasmo e o caos da vida de um grupo de jovens americanos, Araki constrói a falta de sentido e de propósito de uma geração através de quartos que mais parecem galpões vazios e cores ultra saturadas. Entre festas, sexo e aparições alienigenas, somos apresentados a uma geração consciente da própria situação de miséria emocional.

E por falar em miséria, é necessário falar sobre Henry, protagonista de Eraserhead. O primeiro longa dirigido por David Lynch, sempre responsável por obras profundamente esquisitas, é - como é de se esperar - um filme esquisito. Pai de uma criança mutante, Henry precisa achar um jeito de cumprir seu papel como tal. Como é comum de Lynch, o filme tem uma aura curiosa, etérea, usando uma fotografia preta e branca bastante contrastada e colocando os atores para atuarem em uma chave profundamente desconfortável, o primeiro longa de Lynch ficará sempre marcado como uma das obras mais inquietantes da carreira do diretor.

Dentro do mundo audiovisual, há uma mídia específica que sempre apelou para a artificialidade e para a experimentação visual em sua construção de mundos: os videoclipes. Todos temos histórias de algum clipe maluco de um dos nossos artistas favoritos, os cenários geralmente são inventivos e as obras costumam expressar um sentimento e uma vibe mais do que se preocupar em contar uma história. É por isso que durante a Mundos de Plástico o CINUSP exibirá um clipe musical antes de cada filme. A ideia foi encontrar casamentos entre clipes e longas que conversassem em alguma chave estética ou num tipo de experimentação particular, permitindo evidenciar inspirações e brincadeiras que vazam de uma mídia para a outra. 

O convite está feito: entre na sala do CINUSP e permita que as estradas artificiais te guiem em direção ao inesperado, ao esquisito, ao incomum dos Mundos de Plástico que, como bem sabemos, demoram séculos para se decompor. 

Boas sessões!